A Psicopedagogia e sua importância na clínica interdisciplinar

Campos Conceituais

Compreendemos que a Psicopedagogia Inicial é uma Intervenção Pedagógica Terapêutica que tem como função sustentar a criança pequena. Criança esta que se encontra no lugar de construtora de conhecimentos e sujeito desejante em constituição. Onde se vale num processo de apropriação dos valores da comunidade a que pertence.

A Psicopedagogia Inicial como intervenção terapêutica (crianças pequenas) que chega à clínica com problemas de desenvolvimento diferencia-se da Estimulação Precoce. Importante ressaltar que a criança da PI vem de um processo terapêutico que se encerra na Estimulação Precoce, ainda, esta criança da PI está ingressando no Ensino Fundamental.

“A Psicopedagogia Inicial, como intervenção terapêutica numa criança pequena com problemas de desenvolvimento é para nós a montagem de uma cena diferente à Estimulação Precoce” (p.39).

A PI tem como interventor o terapeuta, que se torna o articulador, é aquele que se coloca de maneira especial quando surgem as diferenças. É quando o subjetivo, o cognitivo e a socialização incipiente estiverem na sua posição que a Psicopedagogia Inicial se colocará.

É a partir deste momento que a criança da PI começara a possuir uma maior independência e autonomia sobre o seu corpo, esquemas e funções. É nesse momento, a partir de agora que “esta pequena criança já começa a ser, está iniciando um lugar psíquico desde o qual ela própria possa se expressar” (p.15).

A intervenção terapêutica se dá através do brincar. O brincar é abordado como intervenção tanto no diagnóstico que acontece nas primeiras entrevistas, como posteriormente na intervenção terapêutica. É no brincar que surgem os modelos imitados, incluem-se ainda o desenho e as palavras. Nesse momento a criança ainda constitui seus próprios fantasmas, criando assim ‘momentos’ para enfrentar aquilo que a rodeia.

O existir dessa criança precisa ser recriado, já que para os pais tal criança não pode dar aquilo que os pais um dia esperaram dela, não são aquilo que os pais sonharam para ela e com ela. O sonho destoa da realidade. Desta forma, o terapeuta trabalha em conjunto com equipe interdisciplinar institucional. Essa interdisciplinaridade traz suas especificidades de cada membro, produzindo desta maneira elementos que respondam as perguntas que por hora na clínica da PI parece sem respostas.

Características gerais da criança de Psicopedagogia Inicial

A criança da Psicopedagogia Inicial está iniciando a formação de um lugar psíquico, é por onde a mesma poderá se expressar. O processo do desenvolvimento é uma construção com momentos de transformações significativas.

Logo, um reposicionamento materno provoca também um reposicionamento do filho. Por meio desse reposicionamento a criança pode começar a reorganizar a imagem do próprio corpo.

Podemos lembrar-nos da antecipação funcional que é a relação antecipativa da mãe. A criança não está pronta, não há maturação, no entanto a atencipação funcional é uma sustentação para a criança. Antecipa-se antes do tempo maturativo aquilo que se deseja da criança. O desenvolvimento não é natural, mas é o filtro que o outro coloca nele (criança).

Desta maneira a cada reposicionamento da mãe, a mesma desafia a criança que não ficará mais entregue a ela (mãe), abandonando o corpo materno e embarcando nesta outra modalidade de ser que ele indica. Assim, a criança pode ambicionar deambular e falar. “Toma o filho numa outra forma de proteção, aquela que inaugurará a capacidade de auto-sustentação no trânsito pelos confrontos e mal-estares da vida” (p.16). A cada organização e reorganização a criança vai substituindo a mãe no cuidado de si própria.

E a partir daí inicia-se o processo de organização de recursos a partir da produção imaginária que auxiliarão a montagem da palavra no corpo a partir da mímica, das ações e dos gestos e a organizar a sequência discursiva.

A criança se utilizará de recursos imaginários que são: “o jogo do “fort-da”, os objetos transicionais, os jogos corporais, o jogo de esconde-esconde em todas as suas versões, a brincadeira de cair em todas as suas versões, a repetição no brincar e nos desenhos, os amigos imaginários, a identificação imaginária com os heróis e super-heróis, os cantos e os contos infantis, o fascínio por ouvir sua história de vida, manuseio de álbuns de fotos, filmes de sua infância, as teorias sexuais infantis, os medos e as fobias infantis, a mentira, os devaneios e a invenção de histórias”. (pp.16-17)

É através dos jogos que é possível perceber o simbólico, que tem sua progressão com a intervenção, aonde chega determinado momento que não há mais a necessidade do objeto para se sustentar. Desta forma, “começam a colocar em cena os significantes que elas mesmas criam: já não se trata de serem faladas, senão de propor-se a falar; de ser em somente objeto do desejo do outro, senão de começar também a apropriar-se de seus desejos, separando-se paulatinamente de um jogo que é mera imitação” (p. 19).

No desenho esta criança realiza “traços gráficos nos lugares do espaço; paredes, chão, móveis, etc., ou seja, em diferentes planos”. Dando a estes desenhos nenhuma significação. Todavia, posteriormente tais desenhos terão significantes que aludirá a diferentes conteúdos e significados, desta forma “chegará a pintar uma pequena superfície: índice do aparecimento desta primeira superfície narcísica que é o seu EU”. (p. 17)

É a partir desses momentos citados acima que a criança “... começará a habitar o seu corpo, a tomar conta dele.” Essa descoberta saudável vai abandonando cada vez mais o corpo da mãe.


Vanderlei Suzano

REFERÊNCIAS:

CKOTOFF, N; ENRIGHT, P.; PÃEZ, S.C. Psicopedagogia Inicial: de bebê a menino in Am (a) relinhas, n.1, ago/set – Biblioteca Freudiana de Curitiba, 1994.

MOLINA, S. E. A pequena criança da psicopedagogia inicial in Escritos da Criança, n.5. Centro Lydia Coriat – Porto Alegre: 1998.


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