brincar


O brincar é estruturante - Sobre o jogo do Fort-Da e a necessidade de clivagem do EU

O brincar possui uma longa história na Psicanálise, tornando-se um caminho favorável para estabelecer a comunicação com as crianças. Através dos jogos e brincadeiras, a criança é capaz de expressar seus medos, desejos, ansiedades entre outros, o que teria dificuldades de expressar com palavras.

Portanto, o brincar configura-se indispensável nas questões estruturais de uma criança, pois, o mesmo não tem valor de ato, ele elabora respostas ao outro, não se responsabilizando pelas ações, uma vez que, quando se brinca de faz de conta, é um drama, implicando-se aquilo. Destaca-se, ainda no tema brincar, questões temporais. Nestas, observa-se uma característica de grande importância, a passagem da passividade para a atividade. Ao pensar em brincar à luz da psicanálise, se faz necessário discorrer a respeito do jogo do Fort-Da.

Sobre o jogo do Fort-da, Freud [1920-1996] descreve a situação do brincar de seu netinho, observado pelo mesmo, na repetição de uma experiência aflitiva harmonizada com o princípio de prazer, ou seja, uma brincadeira de jogar e puxar o carretel, encenava a partida e o alegre retorno de sua mãe. A criança transforma sua experiência em jogo, devido a outro motivo. “No início, achava-se numa situação passiva era dominada pela experiência; repetindo-a, porém por mais desagradável que fosse, com o jogo, assumia papel ativa.” [FREUD, 1920-1996, p.26]

O autor analisa a brincadeira como uma atuação da criança em satisfazer suas punções de vingar-se da mãe por seu afastamento, dominando a cena. Ainda em outra análise, destaca-se a importância do menino se deparar com um método de fazer desaparecer a si próprio e ao recuperar o carretel a satisfação e a compreensão de sua existência na ausência da mãe e na certeza que a mesma voltaria. Freud destaca, a respeito da dominância sobre o princípio do prazer, que existem meios de tornar o desagradável em um tema a ser rememorado e elaborado na mente [FREUD,1920-1996].

Jerusalinski (2010) destaca três jogos constituintes do sujeito, dentre eles o brincar de “está, não está”. Relacionado ao jogo do “Fort-da”, descrito por Freud, desrespeita ao movimento constituinte do sujeito, em que a criança busca uma descontinuidade do significante, sua própria imagem vista ou não vista pelo outro, implicando uma unanização, ou seja, colocar em série, ausência e presença.

Esse momento que lhe permite ordenar em palavras o olhar desse Outro Primordial – constituído tipicamente por sua mãe -, captura, retrospectivamente, os pequenos e minunciosos ensaios que, desde bebê, percorreu nos jogos de imitação (as “graças” oferecidas aos adultos), nos jogos de ocultamento (o famoso “esconde-esconde”), as negativas (“virar a cara” para a sua mãe quando “ofendido”); e, adiante, atravessará o brincar de “esconder”, o que se dá a ver e se oculta no corpo, o que se descobre para além do perceptível, a descontinuidade do visível e do não-visível, a oposição e articulação entre presença e ausência, entre posse e falta. (JERUSALINSKI, 2010. p.157)

Na visão de Lacan [1964-2008] o jogo fort-da marca a entrada da criança na linguagem pela utilização de um primeiro par significante. O par significante implica a lógica da pulsão de morte: a palavra é o assassinato da coisa. Portanto, o que é tratado nessa primeira repetição significante é a simbolização de uma presença-ausência, sua articulação à palavra, fazendo com que a relação mãe-criança passe a ser mediada pelo uso da linguagem. Assim, não é o retorno da mãe que está em jogo, mas a repetição de sua saída como causa da divisão do sujeito. O que o jogo visa, segundo Lacan, é o que não está lá enquanto representado, pois o jogo é essencialmente o representante. É o nome representando a coisa, sendo que neste jogo, brincando de “jogar ao longe”, a criança exerce sua função de “soberano” em relação ao significante entregando-se à substituição. A substituição permite, gradativamente, o acesso ao simbólico, conduzindo a criança à posição de sujeito. Surge assim o Sujeito da Fala, Sujeito que consegue realizar a conexão entre a representação e o significante. Além disso, esse momento, que é também o momento da integração subjetiva da representação, é dificilmente concebível sem o significante, nem em outro lugar que não em um sujeito, no único sentido que damos a esse termo, de um sujeito que fala.

Esse carretel não é a mãe reduzida a uma bolinha por não sei que jogo digno dos Jivaros – é alguma coisinha do sujeito que se destaca embora ainda sendo bem dele, que ele ainda segura. É o caso de dizer, imitando Aristóteles, que o homem pensa com seu objeto. É com o seu objeto que a criança salta as fronteiras do seu domínio transformado em poço e que começa a encantação. [LACAN, 1964-2008. p.66]

Lacan nos fala que o conjunto de atividades simboliza a repetição de saída da mãe como causa de uma clivagem do eu no sujeito, superada pelo jogo alternativo do Fort-da que visa “ser o Fort de um da e o da de um Fort”, ou seja, não está lá enquanto representado, pois o próprio jogo é um representante da representação que, por sua vez, torna-se a representação desse representante da mãe na pintura do desejo e da falta. [LACAN, 1964-2008].

O brincar é um ato, surgido como efeito da estruturação significante do Sujeito. O Sujeito, enquanto tal, só é constituído a partir da fundação da experiência do Inconsciente, que por sua vez é estruturado como uma linguagem. Ao observar a brincadeira de seu netinho, Freud constata que o jogar o carretel vinha acompanhado dos fonemas Fort e da. Para ele, o brincar seguido pela verbalização, leva a criança à posição de Sujeito: “Ele se relacionava à grande realização cultural da criança, a renúncia pulsional (isto é, a renúncia à satisfação pulsional) que efetuara ao deixar a mãe ir embora sem protestar” [FREUD; 1920-1996].

Julieta Jerusalinsky (2002) ressalta que para que um bebê se constitua como sujeito, faz-se necessário que o agente materno sustente quatro eixos que são as operações de: suposição do sujeito, estabelecimento da demanda, alternância presença-ausência e alteridade. O jogo do Fort-da, refere-se à - Alternância entre presença e ausência – que diz respeito à possibilidade da mãe de não responder a todos os pedidos do bebê. Se espera que nessa relação não haja apenas presença ou ausência, mas uma alternância; que haja momentos de espera nos quais o bebê possa experenciar-se como sujeito. A autora destaca que esses quatro eixos não acontecem de maneira separada durante o processo de desenvolvimento, eles se entrelaçam nos cuidados prestados pelo outro.

Diante do exposto, destaca-se a clinica com bebês. De acordo com Jerusalinsky (2002) em Análise com crianças o que importa é o brincar e não exatamente o brinquedo, visto que o brincar configura-se como uma atividade que impulsiona a criança ao outro, incita a criança a saber qualquer coisa sobre o Outro.

Qualquer proposta que vise trabalhar o brincar em sua função na clínica psicanalítica tem por obrigação situá-lo no campo da linguagem, em especial do estudo dos signos linguísticos.

Dizer que o brincar é uma linguagem significa, de imediato, conferir-lhe um caráter de prática significante. Assim, é possível relacioná-lo à estruturação subjetiva, pois a ordem humana é caracterizada pela intervenção da função simbólica” (Lacan, 1955,p.44).

O autor destaca que, é no jogo que a articulação da ação com os vocábulos que a acompanham, conferirá um valor interpretativo a este jogo.

O analista de criança, bem como toda equipe de trabalho, deverá significar o corpo dessa criança por meio do brincar. A brincadeira simbólica deverá ser identificada, deverá traduzir o mundo imaginário da criança por meio de conotações e evocações, tornando presente uma experiência.

Destaca-se que até mesmo sem interpretações o brincar possui efeitos terapêuticos. “O momento significativo é aquele em que a criança se surpreende e não o momento de minha brilhante interpretação” (WINNICOTT, 1975, p.59).

O autor ainda apresenta a questão essencial de que na clínica com crianças a interpretação não deve, em hipótese alguma, deter-se na fala. É o brincar e pelo brincar, que significa-se. É a linguagem do jogo que possibilita propor questões, ressaltar e sublinhar determinados movimentos da brincadeira pela imitação, inverter papéis e produzir cortes

A exemplo, a brincadeira de “cadê – achou”, com fraldas no rosto; que evocam um anseio não acompanhado da angústia, uma vez que o analista ou a mãe, está ali. Existe um par de presença significante. O que evoca “Cadê neném” e posteriormente responde “achou!”. Nesse momento, como no Fort-da, a criança lança para que o outro recupere. Nesses jogos, cada vez que o objeto é lançado e recuperado, ele volta diferente.

Sem a pretensão de esgotar a questão das brincadeiras estruturantes, e sabendo que muito tem se a discutir sobre o assunto, concluiu-se que o brincar dá acesso ao inconsciente da criança. Em um contexto clínico, a partir do momento em que se estabelece a transferência e o analista fornece sustentação com sua presença nos jogos interpretativos; emerge, nas atividades lúdicas e estabelece o processo de análise de uma criança.



Vanderlei Suzano


Referências:

FREUD, S. Além do Princípio do Prazer, Obras Completas. Volume XVIII. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1996 [1920].

JERUSALINSKY, A. A educação e a terapêutica? Sobre os TRE jogos constituintes do sujeito. Parte 1. Psicanálise e Desenvolvimento Infantil. Porto Alegre: Artes Medicas, 2010.

JERUSALINSKY, J. Enquanto o futuro não vem: a psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês. Salvador: Àgalma, 2002.

LACAN, J. (1987) O Seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1987 [1955].

LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Rio de Janeiro, Zahar, 2008 [1964].