Bebê


Bebê demanda do outro

Desde que nascemos estamos inundados num mundo humano repleto de coisas diferentes. Somos colocados diante de situações novas cotidianamente. Diante destas “coisas” teremos que superá-las para o nosso desenvolvimento e a própria sobrevivência, e, é desde bebê que iniciamos essa longa jornada para ‘crescer’ e se ‘desenvolver-se’.

E tal processo não acontece de forma isolada, demanda de outro. É necessário alguém que cuide, alimente, interprete e ensine: a falar, andar, comer, etc. Via de regra, esse outro é a mãe quem exerce esta função. O nosso desenvolvimento acontece pelo desejo do outro/alguém, que nos sustenta orgânico e subjetivamente, dessa forma podemos afirmar que necessitamos do Outro para viver, aprender, conhecer, desejar, enfim tornar-se um sujeito de desejo.

É na relação do bebê com sua mãe que deixará marcas, é nessa relação que ocorrerá posicionamentos frente ao desconhecido, ao novo, nessa relação surgirá à autonomia, esta diretamente ligada a este primórdio da vida. E tal processo ocorre desde antes do nascimento do bebê.

Ao nascer o bebê é apenas um corpo orgânico que vem ao mundo repleto de necessidades e reflexos inatos. E este corpo/coisa para vir a se tornar um sujeito deverá ser capturado e inserido em uma rede de significantes tramadas (pelo real, imaginário e o simbólico) pela mãe ou por quem exercer a função materna. Mesmo antes do nascimento deverá (ou deveria) já estar todo enlaçado e emaranhado nos desejos e expectativas familiares.

Berges (2008, p. 163) contribui ao afirmar:

Mesmo antes que a criança nasça, ela é falada. As esperanças dos pais, o desejo ou o receio que se pareça com este ou com aquele, quer seja do lado do pai ou da mãe, que ela se pareça ou não com seu verdadeiro pai, fala-se dela. Em suma, a fala e a linguagem constituem uma necessidade na qual a criança aparece.

Sendo assim, como já dissemos acima, quando o bebê nasce o seu corpo “imaturo” cheio de reflexos e necessidades, começará a ser cuidado e interpretado pela mãe e/ou por quem exerça a função materna. Para que ele possa um dia saber se está com fome, com sede, com frio, com calor, se está triste, alegre, com dor, com saudades, com medo, etc, necessariamente precisará de alguém com quem fazer estas primeiras decodificações e interpretações corporais. Neste sentido, a sujeição ao Outro estará condicionada a este primeiro momento de co-participação de experiências psíquico-corporais com a sua mãe, que deverá nutri-lo orgânico e psiquicamente.

A mãe é quem assegurara ao bebê, além da vida orgânica, a vida psíquica. Dessa forma o bebê vai interpretando e sendo apresentando ao mundo e para o mundo. É a mãe com seus cuidados que vão inserindo a criança na rede de significantes segundo Molina (2001).

A mãe lhe demanda um saber: um choro pode ser frio, fome, dor, desconforto, a mãe vai fazendo tentativas, hipóteses, de acalmá-lo na tentativa de descobrir o que o incomoda! Posteriormente, consegue decifrar a intensidade e o tipo de choro e já sabe do que se trata. Ela não adivinha, pois não é sabedora do seu bebê, ela vai fazendo tentativas até conseguir interpretar o que ele esta querendo dizer, assim ela deixa um espaço entre eles, espaço necessário para advir um sujeito.

Hoje, sabe-se que a comunicação entre o bebê e a mãe se estabelece desde a etapa intrauterina e que ambos adaptam-se um ao outro, seguindo juntos um ritmo de envolvimento recíproco.

Segundo Brazelton (1987) isso não era de conhecimento até a década de 1970. Nesse período descobriu-se que existiam necessidades no bebê que ultrapassavam a fome, o sono e mesmo as fraldas limpas. A demanda do bebê nas trocas sociais revelou-se significativamente o lugar que esse pequeno ser ocupava na relação com as figuras parentais.

Mãe e bebê estabelece um vínculo de tal forma que nessa demanda há um regimento do que um espera do outro e quais os limites estabelecidos. Segundo Cramer (1993) existe uma sincronia interacional que se estabelece a partir de uma interação estruturada, portadora de sentido, onde mãe e filho as empregam como meio de comunicação de seus estados e intenções.

Esse ser demandante do outro (bebê) será balizado a partir das emoções e sentimentos desse outro que ele interage, principalmente a mãe. É a partir desse momento que irá acontecer a aquisição de uma modalidade relacional de acesso ao mundo.

A mãe é o espelho do bebê, proporcionando a este um desenvolvimento de ego, uma sensação de existir, de ver-se como indivíduo. Segundo Winnicott (1982) quando o bebê olha sua mãe e esta o vê, ele sente-se existindo. Podendo ele também, se permitir olhar e ver. Será os pais, a mãe inicialmente, quem irá denominar as experiências afetivas do bebê, permitindo-o reconhecer, observar e obter maior compreensão sobre seus sentimentos, ou seja, quem ele é ou tornar-se-á.

A função materna gesta comportamentos, brindando coerências e coordenação às funções do bebê. Ficando assim estabelecidas as bases para a capacidade futura da criança de auto-regular-se em suas interações com o mundo exterior.

Vanderlei Suzano


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